Agenesia de premolares: esperar ou intervir?
O diagnóstico da agenesia de dentes permanentes ainda na infância é comum no dia a dia do consultório. Contudo, existe um erro clássico que precisa ser superado: acreditar que a única conduta seja manter o molar decíduo e, no futuro, instalar um implante. Essa visão ignora três fatores determinantes: o ciclo biológico do dente decíduo, o risco de anquilose e o impacto no crescimento alveolar. E é exatamente aqui que começa a diferença entre conduta passiva e conduta estratégica.
O que realmente desencadeia a rizólise do dente decíduo?
Agenesia + Anquilose: combinação perigosa
Existe um mito muito difundido: “É o folículo do dente permanente que causa a reabsorção do decíduo.” E sabe-se que na realidade não é nada disso. O dente decíduo está geneticamente programado para sofrer apoptose das células da polpa e do ligamento periodontal. Esse processo compromete os restos epiteliais de Malassez, permite comunicação entre cemento e osso, predispõe à anquilose e evolui para reabsorção por substituição. Ou seja: A anquilose é uma questão de tempo. Com sucessor permanente ou sem.
Nesse artigo da Dental Press o Professor Consolaro explica de forma simples e didática o que realmente acontece. Vou deixar o link aqui embaixo para quem tiver interesse em ler um pouquinho mais.
Dito isso, precisamos entender que a anquilose é muito comum em dentes decíduos que não apresentam sucessores permanentes. A anquilose vai ocorrer em algum estágio do ciclo biológico do dente decíduo. A questão é entender se essa vai ocorrer ainda no período de crescimento ou não.
Sabemos que mesmo sofrendo ou não anquilose o dente decíduo pode permanecer muitos anos na cavidade bucal diante da agenesia de seu sucessor. Porém, quando a anquilose ocorre com o paciente ainda em crescimento, temos comprometimento alveolar vertical progressivo na região, ou seja, altura óssea comprometida. Além disso, outros fatores como inclinação de dentes adjacentes, desvio de linha média, redução do perímetro de arco também podem estar presentes.
Se a anquilose ocorre antes dos 12 anos, o defeito alveolar tende a ser progressivo. E, portanto, o tempo é a variável crítica.
Quando explico isso para meus alunos sempre me deparo com a seguinte pergunta: “mas profa, se eu remover o dente decíduo eu também terei defeito alveolar vertical”. A resposta a essa perguta é : “Sim”. A grande questão é que a literatura sinaliza que o defeito causado por um dente anquilosado quando o paciente se encontra em crescimento tende a ser maior do que o defeito causado pela ausência do dente. Veja a imagem abaixo

Nessa imagem é possível identificar um dente decíduos sem seu sucessor permanente em um paciente de 40 anos de idade, ou seja, apesar da agenesia, o dente decíduo não sofreu anquilose e pôde ser mantido até a idade adulta para instalação de um implante quando apresentasse mobilidade exagerada diante do processo de rizólese lento.
Agora observem a imagem abaixo:
Nesse caso o dente decíduo sofreu anquilose ainda no período de crescimento trazendo comprometimento alveolar vertical, inclinação dos dentes adjacentes e consequente instalação da maloclusão.

Como diagnosticar anquilose corretamente?
A literatura traz algumas manobras clínicas para diagnóstico da anquilose como: característica de “som surdo”à percussão e ausência de mobilidade. Porém, essas são características difíceis de serem identificadas na prática. Portanto, o que podemos analisar é a infraoclusão do dente decíduos por si só.
Radiograficamente dificilmente iremos identificar a ausência do ligamento periodontal, já que o ponto de anquilose pode estar vestibular ou lingual e não ser identificado na radiografia. Porém, a avaliação da crista óssea pode ser um fator característica para a limitação do crescimento alveolar. Observem novamente as duas imagens acima e identifiquem a diferença de inclinação da crista óssea nas duas radiografias. No dente anquilosada a crista óssea se encontra inclinada enquanto que no dente não anquilosado a crista óssea se encontra horizontal em relação aos dentes adjacentes.
Conduta diante da agenesia de premolares
Portanto, diante do que conversamos até aqui, podemos concluir que:
- Paciente em crescimento + Molar decíduo anquilosado + agenesia = indicação de exodontia. Exceto quando o planejamento envolve mesialização de molares permanentes, fechamento ortodôntico do espaço ou estratégia interceptiva ativa. No arco superior, o fechamento costuma ser mais favorável. No arco inferior, a manutenção estratégica até idade adequada pode ser considerada, mas nunca de forma automática.
O que diferencia o especialista?
Não é saber que existe agenesia. É saber quando extrair, manter, fechar, preservar para implante ou trazer o molar para a região. Ortodontia interceptiva é raciocínio biológico, não protocolo rígido.
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