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Mordida aberta anterior: o que ponderar no tratamento interceptor

A mordida aberta anterior é caracterizada pela falta de trespasse entre os dentes anteriores e isso não é novidade, certo? A grande dúvida que persiste ainda nesses casos é quando tratar e como tratar. Neste post iremos conversar um pouquinho sobre as características da mordida aberta em si e como definir nossa conduta terapêutica de acordo com o estágio de desenvolvimento da dentição.

Prevalência da mordida aberta anterior

Como a mordida aberta anterior evolui 

Prognóstico para o tratamento da mordida aberta anterior

Prevalência da mordida aberta anterior

A mordida aberta anterior é uma maloclusão relativamente comum entre os pacientes infantis. Mas afinal, por que é importante entendermos a prevalência de determinada condição de saúde ou doença. Primeiramente, é preciso entender que o estudo de prevalência é importante para entendermos o impacto de determinada condição na população de maneira geral. 

Vamos entender pelo lado prático do clínico “sentado no mocho”. Se este é um tipo de maloclusão com alta prevalência, é importante saber os fatores etiológicos associados a fim de prevenir a instalação do problema, assim como, conduzir o tratamento adequado para o paciente. Ou seja, um problema oclusal pouco prevalente não irá aparecer muito no consultório e portanto podemos encaminhar quando nos depararmos com o mesmo. Porém, uma condição clínica de alta prevalência exige que o profissional domine sua conduta terapêutica se o objetivo for tratar as maloclusões no paciente infantil de maneira geral.

No início de 2022 tive a oportunidade de trabalhar em uma Revisão Sistemática que buscava entender a prevalência dessa maloclusão. Neste trabalho observamos que a mordida aberta anterior apresenta prevalência de 18,84% na dentição decídua, 14,26% na dentição mista e 15% na dentição permanente, o que de certa forma expressa o caráter de correção espontânea ainda na dentição decídua, já que há uma redução na prevalência em cerca de 4%, diferente da diferença entre a dentição mista e permanente que praticamente não se altera.

Um outro dado interessante foi que a prevalência da mordida aberta anterior entre crianças que apresentavam hábito bucal deletério foi de 41,15%. Enquanto que entre crianças que foram amamentadas somente no peito a prevalência fica em torno de 22%, reforçando a importância do profissional de saúde em orientar a remoção ou não instalação do hábito bucais deletérios.

Em relação às características demográficas, os índices de prevalência foram 19,38% na América do Sul, 13,56% na Europa, 8,39% na África e 8,39% na Ásia (somente 1 estudo). Claro que aqui temos que considerar as características culturais sócio-culturais e genéticas entre os diferentes continentes, reforçando a importância em não extrapolar os resultados dos estudos independente das características da população.

Como a mordida aberta anterior evolui 

A maior prevalência da mordida aberta anterior na dentição decídua está muito associada à prevalência de hábitos de sucção não-nutritivos associados a essa fase do desenvolvimento. Dependendo da frequência, intensidade e duração do hábito bucal deletério, o uso de chupetas ou mamadeiras pode predispor a alterações dento-alveolares importantes que possuem tendência de auto-correção quando a remoção do hábito ocorre ainda na dentição decídua. Enquanto que a literatura mostra que diante da persistência do hábito na dentição mista, essas alterações persistem, sendo necessário conduta terapêutica apropriada. Recentemente um trabalho do American Journal trouxe dados interessantes sobre a influência dos hábitos de sucção não-nutritivos, disfunção oral e cárie na maloclusão em crianças entre 8 e 10 anos de idade. Vou deixar aqui o link do AJODO para quem quiser consultar o artigo e ler um pouquinho mais.

https://www.ajodo.org/article/S0889-5406(22)00378-X/fulltext

O que ocorre de fato é que a presença persistente do hábito bucal deletério poderá causar alterações no crescimento e desenvolvimento facial como um todo de acordo com a intensidade, duração e frequência do mesmo. 

Vamos dar o exemplo da chupeta…..

A presença da chupeta entre os dentes (considerando alta intensidade, duração e frequência) irá limitar o crescimento alveolar vertical dos dentes anteriores, causando a mordida aberta anterior. Na verdade a presença da chupeta inibe a extrusão dos dentes na região anterior, causando uma alteração no plano oclusal. 

Bom, quando o hábito é interrompido ainda na dentição decídua, os incisivos permanentes continuam seu processo eruptivo na região anterior e na ausência do hábito estabelecem o padrão de normalidade.

Contudo, quando o hábito persiste na dentição mista, o processo de erupção ativa dos incisivos também é limitado tornando a alteração persistente. O que acontece é que na dentição mista o potencial de autocorreção diminui, sendo necessário instalação de dispositivos como lembretes ou mesmo mecânicas mais elaboradas que permitam que o crescimento do processo alveolar na região anterior se reestabeleça.

Além do mais, na persistência do hábito, pode haver extrusão dos dentes posteriores, o que piora ainda mais as alterações oclusais e faciais. Claro que essas alterações podem ser mais ou menos significativas dependendo das características do hábito deletério propriamente dito ou das características faciais (genéticas) do indivíduo. Por exemplo, pacientes com padrão de crescimento mais horizontal, tendem a apresentam padrão muscular mais hipertrófico, ou seja, a própria musculatura ajuda a controlar a tendência de extrusão do processo alveolar na posterior por exemplo, diferente de um paciente que apresenta um padrão de face mais vertical.

Para concluirmos, quanto maior a duração do hábito ao longo do desenvolvimento oclusal, maior será a alteração facial causada pelo mesmo em virtude da extrusão dos dentes posteriores e limitação do crescimento alveolar na região anterior.

Prognóstico para o tratamento da mordida aberta anterior

Diante do que conversamos nos parágrafos anteriores, não é difícil entender que o prognóstico para o tratamento da mordida aberta anterior irá depender de uma série de fatores como idade do paciente, magnitude da maloclusão, padrão facial do indivíduo, entre outros. Porém, é possível entender que mordidas abertas anteriores associadas a hábitos deletérios removidos ainda na dentição decídua apresentam prognóstico favorável e normalmente não precisam ser dispositivos ortodônticos ou ortopédicos para sua correção. Alguns casos podem precisar de terapia miofuncional coadjuvante para restabelecer as função da língua ou mesmo fortalecer a musculatura perioral, porém a mordida aberta anterior apresenta um caráter de auto-correção ainda nessa fase.

No primeiro período transitório da dentição mista (erupção de incisivos e molares), na persistência do hábito, as alterações oclusais e faciais são mais significativas, sendo necessário a instalação de dispositivos ortodônticos tipo lembretes (grades palatinas ou esporões) a fim de permitir o processo eruptivo dos dentes anteriores. Nessa idade o prognóstico ainda é bom, considerando um paciente com tendência de crescimento equilibrado ou horizontal.

Após essa fase o tratamento com grade palatina apresenta um prognóstico duvidoso, muitas vezes não sendo resolutivo para o tratamento da mordida aberta anterior, sendo necessário intervenção com outros dispositivos para controle vertical dos dentes posteriores ou mesmo bráquetes para fechamento da mordida aberta anterior.

O fato é que não se instala grade palatina na dentição decídua. De maneira geral a instalação de dispositivo para tratamento da mordida aberta anterior ainda na dentição tem caráter de sobre-tratamento. É importante que o profissional entenda a característica da maloclusão e entenda o desenvolvimento craniofacial para entender quais características tendem a se reequilibrar ao permitir o crescimento e desenvolvimento normal daquela criança.

Bons estudos!

Você sabe qual a conduta clínica diante da anquilose de molares decíduos?

Juliana Pereira Andriani

Especialista em Ortodontia e Ortopedia dos Maxilares – UFSC
Mestre em Ortodontia – UFSC
Doutoranda em Odontologia – UFSC
Ortodontista clínica – Integre Odontologia – Florianopólis
Profa. Ortodontia e Ortopedia – ABCD/Florianopólis
Profa. Ortodontia e Ortopedia Academia da Odontologia
Founder Academia da Odontologia
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