Classe II: tratar cedo ou esperar o surto?
Essa é a pergunta que mais gera angústia clínica. A resposta não é cronológica. É diagnóstica. Classe II não é apenas relação molar. Es relação entre bases ósseas: maxila e mandíbula. E o primeiro erro é definir a conduta terapêutica sem definir o fator etiológico associado.
O que pode estar associado à maloclusão de Classe II ?
- Relação maxilo-mandibular alterada
- Overjet aumentado – comum (>5–6 mm já eleva risco de trauma)
- Interposição labial (comum em Classe II primeira divisão)
- Falta de selamento labial (comum também na Classe II primeira divisão – incisivos projetados)
- Padrão respiratório alterado (frequente)
- Possível atresia maxilar associada.
Importante: na dentição mista, relação molar de topo-a-topo molar pode ser fisiológico. Aliás, cerca de 64% dos pacientes Classe I apresentam relação molar de topo na dentição mista. A relação molar será alterada no segundo período transitório com a esfoliação dos segundos molares decíduos e com o pico de crescimento mandibular. Cuidado para não olhar a relação molar e considerar o paciente como sendo Classe II ainda na dentição msita. Dificilmente pacientes que apresentam “meia Classe II” exigem intervenção precoce.
Como a Classe II se define?
- Classe II Divisão 1: Incisivos superiores vestibularizados. Nesse pacientes é comum o lábio inferior estar interposto e overjet acentuado.
- Classe II Divisão 2: Incisivos superiores retroinclinados. Nesse padrão de paciente é comum apresentar lábio superior curto, sobremordida profunda e pouco overjet.
São padrões distintos e exigem estratégias diferentes.
Partindo do princípio que a relação de Classe II esquelética é estabelecida por uma alteração maxilo mandibular temos que nos perguntar qual a real origem do problema. Comece com a seguinte pergunta:
- A relação de Classe II se apresenta por que a maxila está projetada ou a mandíbula retruída?
Para começar respondendo essa pergunta comece identificando o padrão da maxila. Observe medidas como SNA (Steiner, USP), Nperp A (Mc Namara). Esses parâmetros cefalométricos irão te ajudar a definir se o problema está ou não na maxila. Caso o problema se encontre na maxila, os dispositivos mais indicados serão os dispositivos de controle de maxila como o temido extra-bucal por exemplo. Claro que a escolha do dispositivo vai depender de uma série de fatores e que outros dispositivos também podem ser eficazes no controle da maxila, mesmo que em menor magnitude.
Agora, vamos considerar que nosso problema não está na maxila, ou seja, a maxila está bem posicionada, ok? Nesse caso nossa pergunta se volta para a mandíbula.
Qual a origem da retrusão mandibular?
Essa pergunta pode parecer simples mas é vital para o sucesso do tratamento ortodôntico interceptivo. O profissional deve se perguntar qual o fator etiológico associado ao retrognatismo mandibular e a partir daí definir sua conduta terapêutica e o prognóstico.
Portanto, pergunte-se:
O problema da mandíbula é Dimensional (mandíbula pequena)? Essa é uma questão difícil de identificar pois aqui estamos falando de pacientes em dentição decídua e mista e a mandíbula ainda não chegou em seu tamanho final, portanto, os parâmetros cefalométricos podem facilmente nos confundir.
Rotacional (padrão vertical)? Pacientes verticais apresentam retrusão mandibular pelo giro no sentido horario. Esse paciente nem sempre apresenta a mandíbula pequena.
Posicional (base do crânio)? Essa definição muda completamente o prognóstico da ortopedia funcional e poucos profissionais se atentam a ela. Entender qual o posicionamento mandibular em relação à base do crânio e a maxila é fundamental pois a mandíbula pode não ser necessariamente pequena ou mesmo rotacionada, essa pode estar simplesmente retroposicionada o que impacta diretamente no prognóstico e tratamento.
Quando a ortopedia funcional tem melhor resposta?
Quando a retrusão é dimensional os dispositivos ortopédicos funcionais apresentarem melhor desempenham. Contudo, se o fator etiológico for puramente rotacional, o controle vertical será prioridade. Por outro lado, se a retrusão estiver associada ao à posição mandibular na base do crânio, o padrão genético será predominante.
Aparelho funcional não corrige a posição da mandíbula na base do crânio e tão pouco será eficiente se o paciente apresentar padrão vertical severo isoladamente.
Fatores funcionais associados Classe II raramente vem sozinha. Frequentemente há atresia maxilar, respiração oral, hipertrofia de adenoides ou desequilíbrio língua-lábio. O tratamento precoce é indicado para reduzir risco de trauma, melhorar equilíbrio neuromuscular, favorecer vias aéreas e minimizar impacto psicossocial.
Quando NÃO tratar?
- Classe II leve na dentição mista
- ANB dentro de faixa fisiológica para idade
- Ausência de overjet significativo
- Sem comprometimento funcional Literatura respalda tratamento no pico puberal, mas não negligencia intervenção precoce funcional.
Dispositivos utilizados Ortopedia funcional (ativadores, bionator, Frankel), protração maxilar com tração extrabucal, escudo labial ou placas removíveis para controle de overjet.
Conclusão
Classe II não se autocorrige; ela tende a persistir. Mas tratar não é sinônimo de avançar mandíbula em todos os casos. O protocolo começa no diagnóstico: Maxila? Mandíbula? Base do crânio? Padrão vertical?
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