Mordida aberta anterior na dentição decídua ou mista sempre se auto-corrige?
Certamente você ja ouviu algum paciente relatar que quando “chupava chupeta” quando era pequeno e que depois que parou de chupar chupeta a mordida “corrigiu” sem precisar usar aparelho…e por aí vai. Sabemos que essa estória pode ser verdadeira mas também sabemos que a mordida aberta anterior não é a única maloclusão associada ao hábito bucal deletério. Até porque nem sempre o fator etiológico da mordida aberta anterior está necessariamente associado ao hábito por si só.
Portanto, respondendo a nossa pergunta…”a mordida aberta anterior sempre se auto-corrige?”
Sabemos que a resposta é NÃO. Apesar de que a remoção do hábito até os 4/5 anos de idade pode predispor o fechamento da mordida aberta anterior, a manutenção do mesmo até os 2 ou 3 anos de idade pode predispor a mordida cruzada posterior, além das alterações funcionais persistentes. Diante disso podemos concluir que a remoção do hábito deletério deve ocorrer até os dois anos de idade preferencialmente.
Além do que, a mordida aberta anterior na infância pode ser transitória, funcional, dentária, esquelética, associada a hábitos ou resultado de padrão vertical de crescimento, ou seja, o fator etiológico associado vai sugerir o prognóstico da maloclusão.
Sem diagnóstico etiológico claro, qualquer aparelho vira tentativa. E Ortodontia não é tentativa. É decisão biológica. Saber estimar o tempo de tratamento e quais dispositivos podem otimizar nossos resultados clínicos é fundamental para o sucesso do tratamento ortodôntico interceptivo.
O que caracteriza a mordida aberta anterior?
Clinicamente: ausência de contato entre incisivos superiores e inferiores, interposição lingual ou digital, alteração na fala (fonemas sibilantes) e respiração oral associada. Sabemos que na dentição decídua, a presença de mordida aberta frequentemente está ligada a hábitos, apesar de nem sempre esse ser o fator etiológico isolado.

A etiologia muda tudo!
Antes de pensar em dispositivo, pergunte: Há interposição lingual associada? Existe padrão respiratório alterado? O paciente apresenta padrão dolicofacial? Se a resposta for sim, o fechamento da mordida aberta anterior por si só pode implicar em recidiva na troca dos incisivos ou mesmo no segundo período transitório da dentição mista.
Diante do que conversamos brevemente até aqui, vamos tentar ser objetivo em relação a conduta terapêutica…
Quando NÃO é necessário intervir com dispositivo interceptivo na mordida aberta anterior?
De maneira geral evitamos intervenção com dispositivo quando o paciente se encontra ainda na dentição decídua. Nessa fase orientações para remoção do hábito normalmente são eficazes.
Nessas situações o que devemos observar é se o paciente apresenta ou não mordida cruzada posterior ou ainda alguma alterações funcional persistente. Diante da mordida mordida cruzada posterior o tratamento interceptivo com dispositivo estará indicada sim.
Nessa fase de dentição decídua pode se fazer necessário também o encaminhamento para fonoaudióloga ou otorrino. De qualquer forma, mesmo nos casos em que o uso do aparelho não se faz necessário, a documentação ortodôntica será importante para avaliar a cronologia de irrupção (panorâmica) ou mesmo a dimensão das vias aéreas (telerradiografia em norma lateral).
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Já no início da dentição mista, primeiro período transitório, a intervenção se faz necessária. A literatura não traz um único dispositivo como opção de tratamento interceptivo. Nessa fase o que conta é a experiência do profissional e o perfil do paciente para escolhermos entre um dispositivo fixo ou removível por exemplo. De qualquer forma, a remoção do hábito, quando presente, também se faz necessária.
Além da preferência do profissional, definir a característica da mordida aberta (dentária/esquelética) será fundamental na escolha do dispositivo e no prognóstico.
O erro clássico no tratamento da mordida aberta tentar intruir posteriores sem entender padrão facial, ou usar grade palatina sem controle de função muscular. A mordida aberta é, na maioria das vezes, consequência funcional. E função molda crescimento.
Crescimento vertical e prognóstico crianças com padrão vertical aumentado: tendência à rotação mandibular horária, aumento da altura facial inferior e maior risco de persistência da mordida aberta. Nestes casos, o acompanhamento precisa ser mais criterioso.
Dispositivos mais utilizados:
- grade palatina removível ou fixa
- aparelhos ortopédicos funcionais
- controle de hábitos + terapia miofuncional
- pistas diretas (casos específicos).
Contudo nenhum dispositivo substitui remoção etiológica.
Conclusão
Mordida aberta anterior não é apenas espaço sem contato. É sinal de desequilíbrio funcional. Tratar cedo sem critério gera frustração. Esperar demais pode consolidar padrão vertical. O segredo está no diagnóstico etiológico preciso.
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